Reportagem da revista Veja ed. 1671 do ano de 2000. É uma reportagem antiga, mas aponta acontecimentos marcantes no nosso presente, como por exemplo, o crescimento exponencial do Facebook e de empresas dotcom como a Amazon.com
Larry Ellisono profeta do caos
Do alto de sua montanha de 50 bilhões de
dólares e da fama de enxergar longe e ser
o homem mau do Vale do Silício, o presidente
da Oracle prevê um terremoto na internet
dólares e da fama de enxergar longe e ser
o homem mau do Vale do Silício, o presidente
da Oracle prevê um terremoto na internet
Eurípedes Alcântara, de Redwood Shores
| Alan Levenson |
| Ellison: ele deve ser o Gates da era da internet. O mercado parece concordar e h� dois anos infla as a��es de sua empresa, a Oracle, que faz programas para gerenciar empresas. Fora do trabalho, ele tem fama de gastador, mulherengo e de arriscar a vida em aventuras no mar e no ar |
Larry Ellison, o segundo homem mais rico do mundo e presidente da empresa americana Oracle, quer ganhar ainda mais dinheiro e ser o primeiro, à frente de Bill Gates. Não é tanto pelo dinheiro. Depois do primeiro bilhão, já não faz tanta diferença ter mais no terreno aquisitivo. "Quando você conquista o primeiro bilhão, os carros ficam mais velozes, os aviões mais confortáveis e as mulheres a sua volta ficam com as pernas mais compridas." A partir daí, a pessoa já comprou tudo o que os dólares permitem.
A Oracle, criada por Ellison em 1977, é a segunda maior empresa do mundo de software, os programas de computador. Ainda perde para a Microsoft, que fabrica o onipresente Windows. Questão de tempo, acha Ellison. "A Microsoft não vai morrer. Vai ficar aí como um fóssil de uma era grandiosa mas que, infelizmente, para eles acabou: a era do computador pessoal. A economia mundial agora gira em torno da internet. E a empresa de Gates não é 100% de internet, como a Oracle", diz.
Sua empresa valorizou-se 400% no último ano e vem resistindo bravamente ao terremoto na bolsa de alta tecnologia, a Nasdaq(veja a reportagem seguinte). Ele tem algo mais assombroso a dizer. Chega a ser assustador vindo de alguém cujos programas de banco de dados, gerenciamento e contabilidade via internet são comprados por nove em cada dez empresas de comércio eletrônico na web. Larry Ellison afirma que vai sobreviver apenas uma de cada 1.000 empresas que estão tentando viabilizar-se na internet, as chamadas pontocom. "O reino da fantasia acabou", decreta o bilionário americano. "As companhias gigantes da economia tradicional vão continuar dominando a cena. A internet caiu do céu para elas. Com um custo mínimo podem aumentar dramaticamente sua eficiência."
Há alguns anos, ele não seria levado a sério. Primeiro porque se acreditava que a internet provocaria uma reviravolta sem precedentes na ordem econômica. Pela primeira vez na história do capitalismo, surgira um meio de inverter a cadeia alimentar: os tubarões poderiam em tese ser engolidos pelos lambaris. As pontocom ágeis, tocadas a custo quase zero na internet, iriam pouco a pouco expulsando do cenário as empresas tradicionais. Isso não aconteceu. Ellison não era ouvido também por outra razão. Sua própria empresa chamava a atenção menos do que ele próprio. Era sólida, bem administrada, mas tinha o charme de uma fábrica de bicarbonato. O próprio Ellison distanciava-se das operações, dedicando todas as suas energias a gastar bem o primeiro bilhão de dólares. Sua imagem era a de um playboy, fanfarrão e boquirroto. Estava hipnotizado pelas belas mulheres, as Ferrari, os veleiros e os jatos. Tentou importar um MiG 29, um caça russo de combate velocíssimo e difícil de pilotar, mas o governo americano vetou. Contentou-se com um caça italiano Marchetti, que, sem mísseis nem canhões e com uma eletrônica de bordo modificada, ainda é um de seus brinquedos favoritos. Numa oportunidade, depois de ganhar uma regata com larga vantagem sobre os outros velejadores, Ellison correu para seu jato, decolou e deu rasantes desafiadores sobre os perdedores. "Foi uma criancice", lembra ele.
Aos 56 anos, depois de três divórcios e dois filhos, Ellison passa por uma fase pessoal menos intensa. O projeto que mais o absorve atualmente é a construção de sua casa, réplica de um palácio medieval japonês, orçada em 40 milhões de dólares, às margens de um lago artificial nas colinas de Santa Cruz, na costa dourada da Califórnia. O primeiro bilhão virou 50 bilhões, pela última cotação das ações da Oracle. Há alguns meses sua fortuna pessoal beirou os 60 bilhões de dólares, encostando nos 68 bilhões de Bill Gates. Tudo isso faz sua aura tornar-se cada vez mais iluminada e intrigante, especialmente quando o homem que ela ilumina é muito parecido com um roqueiro madurão que ainda se dá ares de rebelde.
Nesta fase de perplexidade com os rumos das empresas da internet, neste momento em que esse mundo virtual parece equilibrar-se no abismo, entre duas eras diferentes, a da decolagem gloriosa e a do vôo sólido de cruzeiro, aparentemente mais complicado, Larry Ellison pilota uma máquina que não perdeu o impulso para o alto. Ao contrário, a Oracle é uma organização administrativa cada vez mais apoiada na internet e crescentemente mais rica. Todos os processos externos, como venda e assistência ao consumidor, são feitos pela web. Os internos também. Ninguém usa papel na Oracle. Todos os relatórios, a maioria das reuniões e todas as ordens de trabalho são dadas pela web para as 170 filiais espalhadas pelo mundo.
"Usamos a web para tudo e, só com isso, economizamos 1 bilhão de dólares em um ano. No próximo vou economizar mais 1 bilhão", diz Ellison. "A boa notícia é que todas as empresas podem fazer o mesmo." Além dessa distinção prática, Ellison tem sido uma fonte de referência porque poliu sua já famosa reputação de ser um dos poucos visionários do Vale do Silício capazes de enxergar adiante de seu tempo. Sobre esse ponto é interessante conhecer o depoimento de Raymond Lane, o superexecutivo que Ellison contratou para tocar a Oracle em sua fase de playboy e ele próprio demitiu em junho passado para retomar o comando da companhia. "Ellison enxerga três, cinco anos à frente dos competidores. Ele sabe que tem agora a chance real de passar à história como o Bill Gates da era da internet", afirma Lane. Larry Ellison demitiu-o pelo telefone, mas garante que foi Lane que pediu demissão. Quando mostra a sala vazia do ex-homem forte da Oracle, ele conta emocionado que sente falta do colaborador, mas logo recobra a compostura e informa com frieza de contador que só a estrutura administrativa montada em torno de Ray Lane e seu quartel-general custava 100 milhões de dólares por ano. Aos 52 anos, Lane levou da Oracle uma bolada em ações e bônus que, segundo o próprio Ellison, chegou a 2 bilhões de dólares. "Graças à web e a nosso software posso comandar a companhia, uma empresa que fatura 10 bilhões de dólares e tem filiais em todos os continentes", diz Ellison. "Nosso sucesso vem daí, de vender aos outros uma solução que nós mesmos usamos e nos permitirá economizar 2 bilhões de dólares em dois anos."
Como toda grande e genuína revolução tecnológica que a precedeu, a internet veio para ficar. Da mesma forma que o desenvolvimento da energia elétrica, das ferrovias, do telégrafo e do telefone, no final do século XIX, a internet fechou o século XX como uma euforia econômica muito mais febril que todo seu formidável potencial permite sonhar. Exatamente como as revoluções anteriores, a rede mundial começa agora a viver sua hora da verdade, um período de depuração em que a imensa maioria das aventuras comerciais que foram um sopro de alegria nos primeiros anos da web vai simplesmente falir. É o que vem dizendo Larry Ellison.
Recentemente, a revista americana de negócios Business Weeklistou as empresas que considera as locomotivas da nova economia: Cisco, EMC, Oracle e Sun. Elas têm duas coisas em comum. Primeiro, pouca gente sabe exatamente o que produzem. O Windows, da Microsoft, por exemplo, vem numa caixa colorida e pode ser comprado em lojas especializadas pelo próprio usuário. Todo mundo conhece ou já ouviu falar do sistema operacional Windows. Por outro lado, os programas da Oracle ou da Sun são comprados pelo "pessoal de sistema" das empresas e rodam invisíveis aos olhos dos usuários nas redes de computador e nas máquinas dos provedores de acesso à web. O segundo ponto em comum é que elas são todas empresas que nada têm a ver com computadores pessoais. São empresas cujos produtos servem para fazer funcionar as redes de computadores. "A cada dia surgem maneiras diferentes de se conectar à internet sem um PC. A internet chega pelo telefone, pelo celular, por aparelhos simples e baratos", diz Ellison. Isso significa que Microsoft, IBM e Intel continuam a existir e a prosperar, mas deixam de ser a vanguarda. "Elas saíram de moda", alfineta Larry Ellison.
Claramente a internet encerra agora sua fase inicial de vida. É o fim do começo, na avaliação da revista americana The Industry Standard, que, com a Fast Company e a Wired, compõe o tripé das melhores publicações nascidas com a missão de cobrir a nova economia. O fim do começo tem duas características. Uma delas é a gradativa mas aparentemente irreversível perda de importância do computador pessoal, em benefício de aparelhos mais leves, baratos e simples de navegação na web. A outra é o furacão que se abate sobre as aventuras comerciais nascidas na onda de euforia dos primeiros anos da internet. Há um pessimismo galopante nessa área. No início do ano, na famosa reunião anual do Fórum Econômico, em Davos, na Suíça, Masayoshi Son, o japonês dono do Softbank, diagnosticava do alto de sua autoridade de maior investidor da web: "Apenas uma em 100 empresas pontocom vai sobreviver". Nove meses depois, os prognósticos estão muito mais sombrios. Ellison fala em uma sobrevivente em 1.000. A consultoria americana Merryll Lynch produziu um relatório cuja previsão é de que 100 das 400 empresas de alta tecnologia com ações na bolsa Nasdaq vão estar fora do negócio até 2005. Em que a internet falhou? Com a palavra, Larry Ellison:
"Uma empresa que vende comida de cachorro na internet precisa antes ser uma boa companhia de comida de cachorro na economia tradicional. Não é porque montou umas páginas atraentes na internet que ela se viabilizará. E como ela competirá com dezenas, centenas e até milhares de outros concorrentes que tiveram a mesma idéia? Um belíssimo restaurante com um chef de primeira linha pode e deve passar a quilômetros da internet. É preciso parar de pensar em empresas pontocom como empresas de tecnologia. A maioria das outras pontocom são apenas deformações, fantasias que logo vão sumir no ar tão rápido quanto surgiram".
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